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# Vocês vão ter que me engolir ─ newsletter #16

### 300Noise discute as psyops da indústria cultural e se prepara: a Copa está chegando

300noise  
abr 30, 2026

Feliz Dia do Trabalhador a todos os leitores da newsletter da 300Noise.

Eu, o editor, juro que serei extremamente sucinto nesta introdução porque o mês está repleto de conteúdo. Nossos colaboradores se esforçaram para oferecer a vocês um paraíso de análises, opiniões e muito mais para esta edição mensal.

Não poderia, claro, deixar de indicar a leitura — para quem deixou passar — do texto da 300Noise sobre [misoginia na música brasileira, uma questão pulsante em nosso país.](https://300noise.substack.com/p/misoginia-dentro-da-musica)

Dito isso, vamos ao que realmente interessa:

### GEESE É UMA PSYOP?

Para quem não sabe, a banda estadunidense Geese, liderada por Cameron Winter, é um dos grandes destaques da música alternativa atual. O disco mais recente deles, Getting Killed, figurou em nossa lista de melhores do ano passado. Este mês, eles tocaram no Coachella e ganharam grande repercussão na mídia, inclusive pelo fato de seu vocalista ter sido fotografado com Olivia Rodrigo.

O trajeto ascendente da banda gerou burburinho nas redes sobre ela ser uma psyop ou uma planta da indústria — uma expressão que significa que o sucesso não foi orgânico, mas resultado de interesses midiáticos que traíram os valores do movimento punk.

Uma [reportagem da Wired](http://wired.com/story/geese-chaotic-good-marketing-industry-plant/) revelou que a banda contratou uma empresa chamada Chaotic Good, que manipula algoritmos de redes sociais criando engajamento artificial em plataformas de vídeos curtos (TikTok, Reels etc.) para expandir a audiência. O serviço também foi contratado por outros artistas como Justin Bieber, Dua Lipa, Wet Leg e muitos outros.

Isso causou furor nas redes, sendo apresentado como prova de que Geese seria uma psyop. O grande problema, meus amigos, é que, assim como o jabá da rádio nos tempos passados, nosso acesso à música agora é delimitado pela caixa preta dos algoritmos, por seus manipuladores ou, em casos mais graves, por músicos que sequer existem.

O caso do Geese talvez tenha sido o mais emblemático, mas serve de lição para tudo que você consome: não acredite em engajamento orgânico e saiba que, provavelmente, está sendo manipulado. Faz parte do jogo. Isso não diminui nem aumenta o mérito dos artistas — afinal, mesmo sendo publi, para uma obra funcionar ela precisa dialogar com a realidade das pessoas. Tem gente que chora com comercial de margarina.

**Falando em publi:** em breve a 300Noise estará estreando uma série de oficinas em uma importante instituição de cultura em São Paulo. Cursos gratuitos em um famoso prédio com mirante para uma famosa avenida. Fique atento nas redes da 300Noise — melhor ainda: no Instagram da 300Noise. Mas vamos divulgar aqui também.

### BRIME! E A MÚSICA EM ANO DE COPA

_Futebol brasileiro é sobre crônica_

Por: MF_vão

A Copa do Mundo deste ano parece ser uma das mais apáticas desde 2002. Os EUA fazendo guerras pelo mundo e ganhando prêmios da paz da Fifa, as várias derrotas e dúvidas que rondam a seleção brasileira ─ até mesmo o sagrado dia de jogo do Brasil sem trabalho ou escola acabou ficando inviável pelo horário dos jogos.

Mesmo com esse desânimo, a desconfiança com a seleção e com vagabundo (que tá lá!) perguntando se o Carleto vai chamar o Neymar, este ano já tem um lançamento que, se não ajuda a acreditar em um hexa, pelo menos dá um pouco mais de vontade de gastar o tempo com 11 marmanjo correndo atrás de uma bola: BRIME!!

**FUTEBOL É UM PILAR DA CULTURA NACIONAL**

A história do futebol se mistura com a própria criação do sentimento nacional brasileiro, seja com a chegada do esporte com os imigrantes europeus no fim do século XIX, sua expansão nacional durante o Estado Novo ou com a instrumentalização do esporte durante a ditadura militar: o desporto bretão é um dos pilares da nossa cultura nacional que se sustenta há mais de 100 anos.

A música obviamente sempre fez parte dessa história, com os hinos dos clubes, marchinhas como _[taça do mundo é nossa](https://www.youtube.com/watch?v=hJAriHOh1Jg&list=RDhJAriHOh1Jg&start_radio=1)_ ou _[transplante de corintiano](https://www.youtube.com/watch?v=nwgxy9vUcGw&list=RDnwgxy9vUcGw&start_radio=1)_, _[flamengo](https://www.youtube.com/watch?v=bDM-PZogywo&list=RDbDM-PZogywo&start_radio=1)_ de Tim Maia (que curiosamente nunca foi flamenguista), _[flamengo até morrer](https://www.youtube.com/watch?v=Cx-2CMk2fkc&list=RDCx-2CMk2fkc&start_radio=1)_ do Marcos Valle e _[filho maravilha](https://www.youtube.com/watch?v=UKZKNPmJpd0&list=RDUKZKNPmJpd0&start_radio=1)_ de Jorge Ben Jor. Tivemos jogadores de futebol que tentaram ganhar espaço no meio musical, como foi o [Pelé e seu álbum](https://youtu.be/8CErAVRLCz8?si=5xC2_3_i6Yv633-x) com Sérgio Mendes, o disco de [sertanejo de Sócrates](https://www.youtube.com/watch?v=xaskxaaqdoY&), [Voa Canarinho Voa](https://www.youtube.com/watch?v=_pmsvMj-NbU), do maestro Júnior, a [boyband evangélica do Marcelinho Carioca](https://www.youtube.com/watch?v=U9JhNaOAULY), Ronaldinho Gaúcho e seu feat com Jorge Vercilo e o lendário (e bizarro) _[rap dos badboys](https://www.youtube.com/watch?v=5mG4wEmiKlo&list=RD5mG4wEmiKlo&start_radio=1)_ de Romário e Edmundo. Fizemos até um [episódio de podcast](https://open.spotify.com/episode/5uMlgizZvo14ZyRnCixcYM?si=8494e9fea9614df6) sobre algumas dessas maluquices durante a pandemia.

**BRIME! E O FUTEBOL COMO CRÔNICA**

De todos esses materiais e suas peculiaridades, nenhum conseguiu captar essa relação entre futebol, cultura popular e música como o Brime!. No primeiro EP de 2020, o [carrinho do Chicão](https://www.youtube.com/watch?v=dXURTRQA7PY) no Hazard do Chelsea não é simplesmente uma homenagem ao time do povo (nota do editor: ponto de discordância), é muito mais do que isso. É um símbolo da vitória do Brasil sobre a Inglaterra, da forma como o nosso país conseguiu criar a melhor forma do grime. É um momento de catarse do futebol e da cultura popular. É o terceiro mundo contrariando as estatísticas e entrando para a história.

Em sua versão expandida, a capa passa a ser a foto do Ronaldinho Gaúcho [na cobrança de falta](https://www.youtube.com/watch?v=7hcFmS1KvRg) que decretou a derrota da Inglaterra na Copa de 2002, um dos gols mais lindos e inexplicáveis de toda a história do futebol.

Seguindo a tradição das batalhas do rap, da música eletrônica underground da Inglaterra e se atualizando com a mistura do funk e do drill, o Brime é uma forma de exaltação da cultura periférica de São Paulo, do terceiro mundo fábrica de Marighella e tudo o que isso significa. O futebol é indissociável do todo da vida.

No novo lançamento Brime!! o Zagallo é a capa, em um momento de muita emoção depois de [vencer a Copa América de 1997](https://www.youtube.com/watch?v=efjSSTr5NXU) contra a Bolívia e desabafar contra os críticos que queriam sua saída da seleção. Não é somente sobre _O Velho Lobo_ e sua revolta com a mídia, mas vai muito além: é um símbolo da cultura popular para se pensar esse momento de provação, de vitória para além do campo. VOCÊS VÃO TER QUE ME ENGOLIR!

Música e futebol só tem uma relação boa quando se reconhece que o futebol brasileiro é muito mais sobre a narrativa, o drama e os momentos de comemoração, do que sobre técnica e tática. É ano de copa. Pelo menos temos uma crônica para este ano: é o Brime!!

### SAIA DO INSTAGRAM E VÁ:

### BAILAR CUMBIA

Los Pibes Chorros, o grupo argentino que está na pista desde o começo dos anos 2000, chega ao Brasil para DUAS apresentações finíssimas no Sol Y Sombra.

Onde: Rua Treze de Maio, 180 - Bela Vista, São Paulo - SP, 01327-000, Brasil

Quando: sexta, 8 de maio **ESGOTOU! Segunda data:** Quinta, 7 de maio, às 22h.

O Lucas me avisou que quem usar o cupom **300NOISE20** tem 20% de descontos em todos eventos e ingressos de rolê no SyS13, beleza?

Ingressos: [Shotgun](https://shotgun.live/en/events/pibes-chorros-no-sys-13-quinta)

### Conhecer o acervo NO TAPE LEFT BEHIND

Aadam Jacobs, de Chicago, é tipo aquele seu amigo que está todo final de semana indo para shows e te convidando para assistir Pedro Paulo e os Tacos de Sinuca e derivados. Ele assistiu mais de 10 mil apresentações entre as décadas de 1980 e 2000. E em cada um desses shows, ele levou sorrateiramente um gravador consigo.

Agora, décadas depois, esse acervo ganha um espaço só seu. Graças a um esforço coletivo e muito trabalho voluntário, todo o material foi digitalizado e está disponível no Internet Archive.

Acesse o acervo completo para ouvir um Kurt Cobain de 22 anos de idade apresentando sua, até então, desconhecida banda, mas também artistas preciosos que nunca chegaram aos ouvidos do streaming. Um verdadeiro esforço do DIY para preservar a memória de uma cena inteira. Acesse [aqui](https://archive.org/details/aadamjacobs).

### SAMBAR E LUTAR

No dia 16 de maio teremos o **[Cordão da Mentira](https://www.instagram.com/cordaodamentira/)** saindo do MASP. O bloco histórico tem, neste ano, uma data diferente: ao invés de relembrar o dia que marcou o golpe militar (1 de abril), o grupo decidiu prestar homenagem às Mães de Maio, movimento contra a violência estatal no Brasil que marca 20 anos em 2026. Se você não manja da história, aproveite para ler o livro. No próximo dia 3, o povo do Cordão organiza uma roda de samba no Sesc Pompeia [também sobre o tema](https://www.sescsp.org.br/programacao/maes-de-maio-20-anos-de-luta-contra-a-violencia-de-estado/).

## O QUE ESCUTAR (E O QUE NÃO ESCUTAR TAMBÉM)

**DE KEKÉ! — VHOOR**  
VHOOR segue sendo um dos produtores/DJs mais importantes do Brasil. Mais uma vez, ele lança um material fundamental na conexão entre estilos mais tradicionais da música eletrônica com o funk. Se você não conhece o VHOOR para além do Baile, está perdendo.

**El hambre y las ganas de comer — La Estrategia del Caracol / Câmara Chilena de la Destruição**  
Em 2026, é quase inevitável deixar de mostrar um lançamento chileno por mês. O país conseguiu se consolidar na cena alternativa global, quase como resposta ao Windmill inglês. Esse split é um excelente exemplo disso. Aqui temos midwest emo, post-hardcore, math rock e bastante identidade.

**Superbloom — Jessie Ware**  
O sexto álbum da londrina segue o ritmo de seus últimos dois discos. Há aqui uma sincronia maior em relação ao que foi apresentado em “That! Feels Good!”. As influências passeiam com mais força pelo soul, funk e boogie, entregando uma paleta de cores bem atraente, mas não necessariamente mais dançante. Uma sensação de último gás para uma trilogia de dance pop.

**Earl Sweatshirt & MIKE — Pompeii // Utility**  
Aos moldes de Speakerboxxx / The Love Below do Outkast, os dois rappers mais aclamados da geração recente de hip-hop experimental se unem em uma mixtape dividida em duas partes. A direção das batidas pendeu para uma abordagem mais próxima do trap, enquanto a produção mais “caseira” e “crua” deixa bem clara a mão do coletivo Surf Gang no projeto. No que tange a MIKE e Earl, suas rimas não fogem muito do esperado; os ritmos são lentos e os versos, acompanhados das batidas, mostram-se bastante hipnóticos em vários momentos. De forma geral, a parte do Earl pareceu mais consistente, visto que a contribuição de MIKE soa menos inspirada e mais monótona que o de costume. O fato de haver muitas faixas também não ajuda, tornando a escuta menos memorável. Um trabalho interessante com execução questionável.

**Nine Inch Nails & Boys Noize — Nine Inch Noize**  
Direto da apresentação no Coachella, a colaboração da década chega para quem não conseguiu estar presente nesse apoteótico evento. A parceria vinha desde os remixes feitos pelo Boys Noize para a trilha sonora de Challengers (ótimas releituras, diga-se de passagem), além da turnê com Nine Inch Nails. Bem, parece que Trent Reznor entendeu que a pista de dança ainda está bem viva. Receba versões de sons recentes e de alguns clássicos antigos do NIN, ainda mais densas, obscuras e pesadas. Ótimas para serem ouvidas em um ambiente escuro, repleto de luzes estroboscópicas, fumaça de cigarro e vampiros à espreita. A decisão de não fazer um álbum 100% ao vivo funciona, pois se trata de um mix de estúdio e da apresentação feita no festival californiano, aliando autenticidade à qualidade necessária para soar bem nos fones. Não é a obra mais revolucionária do ano, porém é uma das mais instigantes e divertidas. Mal posso esperar para ver isso ao vivo.

**Portrayal of Guilt — ...Beginning of the End**  
Provavelmente uma das bandas mais maléficas das últimas décadas. Se você busca um metal que soe maligno, completamente atormentado por espíritos obsessores, ouça esses texanos. Inclusive, comece por este álbum por uma única razão: é o trabalho mais diverso em termos de abordagem estética e estilística. Cada som é uma força motriz que une todos os elementos que tornam Portrayal of Guilt um mensageiro do apocalipse. A violência sonora ganha forma por meios muito únicos, variando do skramz ao black e doom metal. Os caras não têm medo, flertando até mesmo com nu metal e rap. Os toques industriais, somados aos timbres ásperos e ruidosos, dão um tempero já esperado para esse tipo de som. Não deixe essa banda passar longe do seu radar, visto tratar-se de um dos sons mais inspirados e criativos sendo feitos recentemente.

**Angine de Poitrine — Vol. II.**  
Mata, zyklek ma, Ta zy, klek mata, Zyklek, mata zy, Hey-ah! Certamente você já sabe de quem se trata. Eles são peculiares, tocam usando instrumentos microtonais, explorando a psicodelia de forma totalmente quebrada. Cativaram a internet com seu carisma e trouxeram de volta a estampa de bolinha. Apenas gostaria de deixar registrado que nenhuma música produzida por inteligência artificial chegará perto da insanidade que esses músicos executam. Somente isso. Vá escutar mais músicas de doido. Vá fazer música de gente doida.
